Crítica O Mal que nos Habita | Sanguinolento, cruel e incrível


De vez em quando, surge algum filme de um gênero específico que tenta usar tudo aquilo que nós já conhecemos sobre ele, subvertendo algumas expectativas e entregando algo que, mesmo sendo bastante familiar, parece novo. Boa parte dos filmes de terror cerebral se encaixam nessa ideia, mas poucos são aqueles que realmente surpreendem o espectador.

O Mal que nos Habita é uma produção argentina que pega a ideia de uma manifestação demoníaca passando por diferentes criaturas e muda a forma como tudo é visto. Ele é um dos filmes mais cruéis dos últimos anos simplesmente por tirar qualquer vestígio de algo que sempre pareceu bastante necessário para o gênero de terror: a esperança.

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Uma epidemia do inferno

O Mal que nos Habita gira em torno de dois irmãos, Pedro e Jimi, interpretados por Ezequiel Rodríguez (Violetta) e Demián Salomón (Punto Rojo). Vivendo em uma propriedade isolada da cidade, eles escutam um barulho na madrugada e saem para averiguar. O que eles encontram é um corpo mutilado e itens que apontam para alguém que está tentando se livrar de uma possessão.

Avançando um pouco pela região, eles encontram a casa de uma família bastante simples e um morador que foi tomado por essa criatura maligna. Com um corpo já em um estado grotesco, mas ainda vivo, o homem constantemente pede para ser morto.

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Pedro e Jimi não sabem o que fazer e pedem ajuda a um fazendeiro próximo. Eles sabem que para conseguir se livrar desse problema, seria necessário seguir todo um protocolo, mas imaginando que a simples presença daquela pessoa “infectada” seria um problema para a região, o trio tenta movê-lo para algum lugar distante.

O que parecia a solução desencadeia uma sucessão de desastres completamente absurdos e imprevisíveis para todos os envolvidos. O filme prende a atenção do espectador logo de cara por evitar algo que é muito presente em produções do gênero, que é tentar explicar demais alguns elementos para contextualizar tudo.

O Mal que nos Habita faz pouca questão de contar porque é tão comum ter alguém especializado em realizar expurgo de possessões, seus protocolos ou simplesmente, como isso é comum o suficiente para ser identificado por duas pessoas comuns.

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O filme joga o espectador no meio da história e o mantém preso nos acontecimentos como se ele já fosse familiar a tudo. Isso poderia ser bastante arriscado, mas funciona muito bem nesse caso, já que a maneira como tudo é apresentado faz com que você mesmo possa preencher algumas lacunas na história.

Outro elemento bastante interessante é a forma como essa possessão é tratada, basicamente como uma doença que pode ser transmitida para qualquer ser vivo que esteja por perto. Não é uma ideia particularmente nova, mas a forma como é apresentada, evoluindo quase como se fosse uma pandemia, mas com um objetivo bem macabro.

Violento e impiedoso

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Até certo ponto, O Mal que nos Habita parece um filme bastante comum, e apesar de apresentar a figura grotesca do possuído, ainda se concentra muito na paranoia dos personagens. Isso chega até a fazer com que o espectador se questione se tudo aquilo que eles estão falando e fazendo não é apenas uma loucura de suas cabeças.

Só que o diretor Demián Rugna preparou um filme bastante cruel, que acaba virando uma chave em uma cena bastante específica. Todo o tom do filme a partir dela muda, já que você percebe a gravidade de toda a situação e o como essa força maligna realmente atua.

Confesso que, assistindo ao filme pela primeira vez, não estava entendendo porque ele havia sido tão elogiado após ter sido exibido no Festival Internacional de Cinema de Toronto (TIFF na sigla em inglês). Essa cena mudou tudo. A partir desse momento, O Mal que nos Habita se tornou um filme bastante sangrento, mas não ao ponto de ser comparado a uma produção americana, como Terrifier 2, mas que apresenta uma violência suja e incômoda.

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Eu não tenho problemas com filmes de terror com violência extrema, confesso que alguns me chamam bastante a atenção exatamente por conta desse exagero, mas O Mal que nos Habita me impressionou exatamente pela forma como as coisas acontecem.

Essa cena jogou o longa em um nível que você perde a esperança de que as coisas vão ficar bem. Até então, a história seguia por um caminho em que eu esperava que iria, mas tudo se torna obscuro dali para frente. Existe um outro momento, que já tomado por essa desesperança, você começa a pensar no que pode dar errado e que eles não vão fazer aquilo. 

Quando tudo acontece, você não toma um susto. Fica chocado com os acontecimentos, mas sem muita reação. O Mal que nos Habita passa uma ideia de que devemos torcer pelos personagens, mas entender que talvez tudo aquilo seja forte demais para eles enfrentarem.

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Quando um dos irmãos parte para tentar resgatar seus filhos, que estão com sua ex-mulher, você entende o desespero do homem, mesmo depois de supostamente ter cometido erros que afastaram sua família dele, de salvar a todos. Só que o diretor deixou claro que possivelmente, não será possível salvar ninguém.

O Mal que nos Habita não tenta esconder o que é, não usa truques de câmera para enganar o espectador. Tudo o que você vê é o que precisa ser visto, da maneira mais cruel que possa parecer. E talvez essa seja a graça do filme.

Apesar de boa parte dos filmes de terror tentarem causar medo no espectador para mostrar que ele está vivo, sentindo fortes emoções, longas como O Mal que nos Habita faz isso de um jeito bastante específico. Ele passa uma sensação de que você viu algo sem um pingo de esperança, deixando apenas um vazio. E isso pode ser mais aterrorizante que qualquer outra coisa.

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O Mal que nos Habita está em cartaz nos cinemas de todo o Brasil.



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